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Tô de Birra com o Universo

(Versão em português de The Universe is a Comedian)

PRIMEIRA PARTE

Dizem que o Universo fala com a gente.

Sério?

Eu creio que sim.

Talvez seja o Universo que sussurre lá no fundo da nossa mente, aquela intuição no peito que diz: Hum... acho melhor eu não ir por aí. Ou então: Tem alguma coisa estranha nessa história...

Sinais e mensagens subliminares que aparecem antes que alguma coisa aconteça. Muitos, erradamente, têm a tendência de ignorar esses avisos cósmicos.

Eu, certamente, ignorei.

Mas também descobri que o Universo tem uma outra forma — muito menos sutil — de se comunicar. Quando os sussurros não funcionam, o Universo, que nem criança mimada, grita, faz birra e começa a atirar coisas na sua direção.

Talvez não literalmente... Na maioria das vezes.

As coisas simplesmente começam a acontecer. Uma atrás da outra. Como se houvesse um cara lá no cosmos, um controlador de tráfego aéreo, convencido de que você está na rota errada e, então, tenta desesperadamente recalcular o seu trajeto antes que você acabe colidindo com um albatroz e se espatife.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo na última viagem que fiz ao Brasil, no começo deste ano.

Primeiro você dá de cara com um desvio na estrada que aparece do nada. Você releva. Depois acontece outro. Logo em seguida, outro.

Parece praga! — você pensa.

Aí, num momento de iluminação — ainda obscura — você acredita que tudo é culpa do Universo que, sem mais nem menos, resolveu desenvolver um interesse especial pelo seu roteiro de viagem.

E assim foi. Lá estava eu, aterrissando no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, e o Universo já estava no desembarque, preparado, segurando uma placa com o meu nome.

Contudo, eu não estava preparada para ele.

Aqui faço um parêntese para explicar ao meu caro leitor que eu não havia ido ao Brasil para perambular com amigos. Na realidade, minha mãe havia acabado de falecer; por isso, meu objetivo era lidar com tudo aquilo que precisa ser resolvido em situações como essa: questões práticas, burocráticas e emoções muitas vezes complicadas.

Durante a viagem, o Universo já havia se manifestado várias vezes, deixando-me predisposta contra ele. Meu espírito de combate estava madurinho!

Assim que desembarquei, fui direto para a casa da minha mãe — um apartamento num bairro nobre do Rio de Janeiro. Contudo, deparei-me com algo inesperado.

O apartamento estava... qual seria a maneira mais gentil de descrevê-lo? Deixe-me pensar...

O apartamento estava um desastre!

Minha mãe já era bastante idosa e morava sozinha. Pelo que pude perceber, a diarista não aparecia havia quase dois meses, sem contar o mês em que minha mãe ficou internada no hospital.

Imagine: um apartamento já muito velho, abatido pelo tempo, numa área movimentada de Copacabana.

O problema não era simplesmente bagunça. Era o abandono, a decrepitude, a sujeira acumulada. O apartamento já estava prestes a ser interditado pela Vigilância Sanitária.

Olhei à minha volta sem acreditar.

Nada funcionava.

Dois banheiros que mal funcionavam.

Dos três quartos, dois estavam nus, com caixas, uma montoeira de coisas e sem camas.

O único leito sobrevivente era uma cama de solteiro duríssima, no quarto da minha mãe, especificamente construída, certamente, para torturar corpos cansados e destrambelhar colunas vertebrais.

Fiquei alguns instantes parada, absorvendo aquela cena, até chegar a uma conclusão inevitável — e, na minha opinião, completamente lógica.

Eu não vou ficar aqui nem morta.

Tenho certeza absoluta de que essa decisão foi imediatamente registrada nos arquivos urgentes do Universo.

Porque, convenhamos... é impossível nos escondermos dele.

Assim, tomada a minha brilhante decisão, comecei a procurar um hotel. E, após uma eternidade, achei um e disparei para lá que nem uma maluca.

Já era noite, e eu não mais parecia uma canadense distinta recém-chegada. Em vez disso, parecia mais o Coiote do desenho animado, exausto, de língua para fora, depois da quingentésima tentativa fracassada de capturar o Papa-Léguas.

Desidratada, com os lábios secos, o meu cabelo dismilinguido já havia desistido de lutar contra o calor e a umidade. Meus olhos pareciam prestes a saltar das órbitas. Minha língua parecia uma criatura independente, sem saber se grudava no céu da boca ou se se pendurava para arejar.

Eu transpirava tanto e emitia um calor corporal tão intenso que meu corpo podia ser considerado meu próprio sistema meteorológico.

Lá fora, a temperatura oficial era de quarenta graus. Mas, se dissessem que fazia cem, eu teria acreditado.

Entrei cambaleando no saguão do hotel e implorei por duas coisas: água e comida.

— Pelamordedeus, por favor... mantenham a cozinha aberta mais uns dez minutinhos. Eu ainda não consegui comer desde hoje de manhã.

Acho que ficaram com pena de mim.

— Podemos fazer melhor do que isso. Vamos fazer um upgrade no seu quarto.

Olha só... Que maravilha.

Uma centelha de esperança.

Talvez eu tenha julgado o Universo cedo demais.

Agradeci, peguei o cartão eletrônico e subi, já suspirando de alívio.

Passei o cartão. A porta não abriu.

Empurrei. Nada.

Empurrei com mais força. Nada ainda.

Tudo bem... portas emperram. É perfeitamente normal. Fiz mais uma tentativa — sacudi a maçaneta, passei o cartão de novo e empurrei mais uma vez.

Nessas alturas, o suor já escorria pelo rosto, pelas costas, pelas pernas — e por lugares obscuros que prefiro não mencionar.

Finalmente a porta resolveu colaborar, e eu entrei.

À primeira vista, o quarto até parecia simpático. Havia um armário logo na entrada, um quarto à direita, um banheiro à frente e uma sala relativamente grande à esquerda, com sofá, mesa e uma cama extra.

A iluminação estava baixa, de modo que tudo parecia bastante aconchegante.

Hum... até que não está ruim.

Quando acendi o resto das luzes...

Meu Deus do céu!

As paredes pareciam ter sido pintadas em cinquenta tons de abandono. Cinza, com manchas de sujeira e pedaços descascando.

Triste!

O banheiro dava a impressão de ter desistido de viver em algum momento da década de setenta — sem mencionar os pontos de sujeira que eu observei clinicamente.

Eu precisava desesperadamente fazer pipi. Mas não tinha certeza se sobreviveria ao contato direto com aquele vaso sanitário. Assim, tirei o meu fiel frasquinho de álcool em gel da bolsa e comecei a esfregar o assento do vaso com um zelo meticuloso, como se estivesse preparando um instrumento cirúrgico.

Uma vez satisfeita com a assepsia, sentei-me e suspirei aliviada. Foi então que percebi outra coisa. Estava quente. Muito quente. O ar condicionado não está funcionando!! Liguei para a recepção de imediato, e eles mandaram um funcionário para averiguar.

O cara chegou, entrou no quarto e ficou encarando o termostato com um olhar contemplativo — mais para peixe morto.

Resultado? Nada.

Mandaram outro funcionário. Este também entrou, me deu um sorriso desdentado, olhou para o termostato piscando vagarosamente, quase parando.

Resultado? Nada.

Dois funcionários. "Técnicos", segundo o hotel. Somando os dois, pareciam ter a competência técnica de duas maçanetas sem lustre e com hipotireoidismo.

Finalmente desisti.

— Tudo bem... Posso pelo menos pedir um jantar?

— Podemos fazer um queijo quente.

Naquele momento eu teria aceitado até massinha de modelar.

— Serve.

Algum tempo depois apareceu outro funcionário. Para ser sincera, nunca descobri exatamente qual era a função dele no hotel. Veio todo amarrotado, com a camisa para fora da calça, como quem havia sido arrancado às pressas de um sono profundo para entregar minha comida.

Detalhe: Chegou carregando um prato descoberto.

Suando mais do que eu, o que realmente é fenômeno inusitado, extendeu o braço na minha direção, com o polegar sujo dentro do prato contendo fatias de pão torrado seco e uma fatia de um queijo misterioso.

Olhei para o sanduíche. O sanduíche olhou para mim. Engoli em seco.

Depois que ele saiu, fiquei alguns instantes sentada na cama, segurando o prato e encarando aquela atrocidade. Até que criei coragem e dei a primeira mordida.

Jesus, Maria e José! Que horror!!

Mesmo assim, fiz o que sempre faço. Procurei o lado positivo. Eu sou realista, mas também otimista... Uma realista com um quê de otimismo. Sempre digo para mim mesma que amanhã será melhor, que tudo tem solução. Acreditei que no dia seguinte, mais descansada, tudo melhoraria.

Pois bem, após passar a noite dançando lambada com a cama quente, de manhã desci para experimentar o famoso café da manhã do hotel. O concierge tinha garantido que era excelente.

— Excelente! — ele havia dito, sorrindo de orelha a orelha.

Meu Deus...

O tal do buffet acho que tinha morrido e esqueceram de enterrar. A comida parecia velha. As frutas pareciam cansadas e desgostosas. Até o café, morno e moribundo.

Fiquei ali alguns instantes olhando em volta.

Foi então que finalmente aceitei aquilo que o Universo vinha tentando me dizer mesmo antes de ter chegado ao hotel.

Vai embora.

E foi exatamente o que fiz.

Cancelei a reserva, expliquei os motivos, peguei minhas malas e voltei direto para o apartamento da minha mãe.

Imaginei o Universo com sorrisinho maquiavélico nos seus lábios cósmicos. Afinal de contas, elea não tinha terminado comigo.

SEGUNDA PARTE

Depois da inesquecível experiência no Hotel Número Um, lá estava eu de novo, parada no meio da sala do apartamento da minha mãe.

Olhei em volta mais uma vez, exatamente como havia feito quando cheguei.

Não. Nem pensar. Eu não vou ficar aqui.

Era como estar no meio de uma escavação arqueológica abandonada, perdida no coração da Amazônia. O Universo não podia estar falando sério. Ele não podia realmente esperar que eu ficasse ali. Não podia.

Então, eu fiz o que qualquer mulher teimosa, exausta, sofrendo de jet lag, com uma tonelada de malas e mais determinação do que bom senso faria — fui procurar outro hotel.

Lá fui eu para o Google procurar outro hotel com vaga. Sendo verão no Brasil, isso estava quase virando missão impossível.

Dessa vez encontrei o Othon.

Quem conhece o Rio sabe que o Othon era um daqueles hotéis clássicos de Copacabana, de frente para o mar. Anos atrás, quando eu era jovem, costumava subir até o terraço com meus amigos para tomar um coquetel virgem e admirar a vista do mar iluminado pelos postes de luz da orla.

Na minha cabeça, o Othon representava conforto. Luxo. Civilização. E... ar condicionado.

Entrei no saguão já imaginando um banho refrescante. O recepcionista sorriu para mim com simpatia.

— Boa tarde. O senhor teria um quarto? Talvez por uma ou duas semanas?

Ele respondeu que sim.

Melhor ainda...

— Vamos fazer um upgrade para a senhora.

De novo?

Pensei logo que o Universo talvez tivesse reconhecido que havia pegado pesado comigo da primeira vez. Quem sabe aquilo fosse um pedido de desculpas.

Sorri para mim mesma.

Voltando minha atenção para o recepcionista, ouvi quando me pediu que eu aguardasse enquanto preparavam o quarto.

Assim, sentei-me no saguão de entrada, onde várias outras pessoas também esperavam. Aliás, o hotel estava lotado de turistas. Todo mundo também sofrendo com o calor. Uns bebiam água, outros, refrigerante. Alguns se abanavam com leques, revistas, chapéus... Qualquer coisa que movesse o ar ao redor deles.

Eu estava derretendo. Literalmente. Meu suor escorria profusamente, empapando a poltrona de napa. Se alguém resolvesse plantar vitórias-régias aos meus pés, elas provavelmente brotariam.

A umidade me envolvia como um cobertor quente e molhado. A roupa grudava no corpo como se minha pele tivesse desenvolvido um campo gravitacional próprio.

Em determinado momento, olhei para a minha calça e arregalei os olhos, horrorizada—

Meu Deus... Vão achar que eu fiz pipi na calça!

Tentei racionalizar — talvez as portas automáticas estivessem abrindo com muita frequência e o ar-condicionado não estivesse conseguindo manter a temperatura.

Meu cérebro sempre precisa encontrar uma explicação razoável.

Finalmente o recepcionista me chamou.

— Seu quarto já está pronto.

Excelente, pensei, e subi aliviada.

O quarto era realmente muito bonito. Grande, confortável e bem decorado.

Ooh là là... agora sim estamos nos entendendo.

Larguei as malas e olhei em volta, sorrindo. O sorriso, no entanto, não durou muito. Algo logo ficou evidente. Estava quente. Muito quente. Na verdade, o ar que saía da ventilação estava morno e, logo em seguida, parou por completo.

Nãããão! Não, não, não... De novo, não!

Liguei para a recepção.

— O ar-condicionado não está funcionando.

Logo mandaram um funcionário. Ele entrou no quarto e ficou olhando fixamente para o termostato. Uma desagradável sensação de déjà vu me arrebatou.

Ele apertou alguns botões.

Nada.

Outro funcionário veio em seguida. E, assim como o primeiro, entrou, encarou o termostato e apertou exatamente os mesmos botões.

Resultado? Nada.

Por que será que todo mundo entra em transe quando olha para esse negócio?

Resolvi tentar eu mesma. Mas logo em seguida sucumbi à mesma condição dos funcionários. Fiquei ali estacionada, encarando o termostato, sem fazer a menor ideia do que fazer.

Resolvi ligar novamente para a recepção.

— Ah... tivemos um pequeno problema com o gerador.

Gerador?

A imagem de um gerador imenso se formou na minha mente.

— Gerador? Que gerador?

Foi então que explicaram. O hotel estava sem energia elétrica.

Sem energia? Então não tem ar-condicionado. Não tem elevador. Não tem... absolutamente nada.

Naquele momento, levantei os olhos em direção ao teto.

Sério? Você é um comediante mesmo!

O Universo estava se divertindo às minhas custas. Era um show de espetáculo com uma plateia de um. Ele mesmo.

Vale lembrar que, àquela altura, já eram quase três horas da tarde. Eu havia chegado por volta do meio-dia, havia esperado horas pelo quarto e ainda não tinha conseguido comer.

Descobri então que a falta de energia havia começado muito antes de eu chegar.

Ahá... Por isso estava aquele calor infernal no saguão.

Que gênio, Sherlock! Belíssimo poder de dedução, hein?

Peguei o telefone outra vez.

— Escuta... eu realmente preciso comer. Não como nada desde hoje de manhã.

Olhei para a única garrafinha de água que vinha racionando desde que chegara.

— Também preciso de água.

— Pedimos mil desculpas. Vai ser resolvido muito em breve.

Muito em breve.

Essa expressão acabaria se tornando um personagem importante da história.

— Eu entendo. Mas eu realmente preciso comer alguma coisa.

— Vamos ver se conseguimos mandar alguma comida para a senhora.

Maravilha.

Enquanto esperava, o quarto foi se transformando lentamente numa sauna. A tarde virou noite. E eu continuava sem comida.

Sem energia.

Sem ar-condicionado.

Sem água...

Liguei novamente, sempre extremamente educada. Aliás, eu estava tão calma, tão delicada e tão docinha que fiquei com medo de vomitar.

Dessa vez, admitiram que um equipamento havia quebrado na casa de máquinas. Tinham conseguido restabelecer a energia — mas apenas nos andares mais baixos. 

Infelizmente, eu estava na penthouse do apagão. A eletricidade simplesmente não conseguia chegar até mim.

Esplêndido. Vou continuar com fome, pegajosa e cozinhando lentamente.

Às dez da noite, minha paciência já tinha virado uma gata arisca, e a doçura da minha voz tinha o exato travo de um jiló rançoso. Com o bom senso fazendo as malas para ir embora, peguei o telefone mais uma vez.

— Olha... — falei, com um tom calmo, porém numa cadência digna de Hannibal Lecter. — Acho que vou ter de chamar a polícia.

Silêncio.

— Ou talvez o Corpo de Bombeiros.

Silêncio ainda maior.

— Alguém precisa vir me resgatar antes que eu morra de desidratação e hipoglicemia.

Ao que parece, isso finalmente chamou a atenção deles. Pouco tempo depois, apareceu um funcionário carregando várias garrafas de água. Imaginei que houvesse alguma cozinha acima do meu andar.

Nunca fiquei tão feliz na vida ao ver uma garrafa de água mineral. Pediram desculpas inúmeras vezes. Garantiram que a água seria cortesia. Também liberaram todos os petiscos que estavam em cima do frigobar, totalmente de graça. Castanhas salgadas. Amendoins salgados. Batatas chips salgadas. Uma verdadeira conspiração hipernatrêmica. (Hipernatremia é o excesso de sódio no sangue, caso o meu ilustre leitor queira saber.)

— Assim que a energia voltar, manteremos a cozinha aberta. A senhora poderá pedir qualquer prato do cardápio.

Ah, agora sim estávamos falando a mesma língua!

Então fiz exatamente o que qualquer mulher com o cérebro frito e um mínimo de instinto de sobrevivência faria: ataquei todos os pacotes de salgadinhos e bebi água feito um camelo — já arriscando o oposto da desidratação, a tal da hiponatremia. Quando a luz finalmente voltou, horas depois, devorei um jantar épico sem o menor peso na consciência. E ainda pedi mais algumas garrafas de água.

A gente aprende.

Na manhã seguinte, porém, os problemas elétricos continuavam. Olhei em volta daquele lindo quarto. Depois olhei para cima — Sério?

Arrumei minhas malas outra vez, recebi o reembolso integral, agradeci aos funcionários pelo esforço e voltei para o apartamento da minha mãe.

De novo.

Pela segunda vez, fiquei parada no meio da sala, olhando aquele apartamento decadente, tendo a distinta impressão de que ele olhava de volta para mim.

O Universo não disse absolutamente nada — Entrou em greve de silêncio, é?

E eu continuava sem entender o recado.

TERCEIRA PARTE

Então...

Após quatorze horas de voo, um coração partido, um corpo moído, o Hotel Número Um, o Hotel Número Dois e suor suficiente para reabastecer o Rio Amazonas, comecei a suspeitar de algo: o Universo e eu tínhamos chegado a um impasse diplomático sobre o meu destino. Eu continuava me recusando a pisar no apartamento da minha mãe. E o Universo continuava se recusando a me deixar dormir em qualquer outro lugar do planeta.

Meus amigos mais próximos no Brasil não tinham exatamente um quarto sobrando, e eu não queria ser a visita sem-noção que invade a rotina da família alheia. Além disso, no fundo, eu acho que buscava algo difícil de explicar: um cantinho para ficar completamente sozinha. Um bunker para escapar das memórias, chorar em paz, se quisesse, rir de nervoso e dormir. Basicamente, um lugar para simplesmente... engatar o automático e existir.

Assim continuei procurando.

Alguém sugeriu o Airbnb. O problema é que o Airbnb e eu não fomos realmente feitos um para o outro. Eu já tinha ouvido histórias de horror suficientes para saber que, às vezes, as fotos de um anúncio cultivam uma vida de fantasia mais rica do que novela de época. Mesmo assim, uma amiga insistiu:

— Tem lugares maravilhosos, você só precisa escolher a dedo.

Desafio aceito. Depois de um verdadeiro garimpo, achei o apartamento perfeito em Ipanema. Você conhece Ipanema, certo? Aquela do “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...” 🎶

Com uma trilha sonora dessas, o que poderia dar errado?

O anúncio prometia o paraíso: um quarto charmoso, pertinho da praia e do lado do metrô. O lugar perfeito. Empolgada, mandei mensagem para o anfitrião.

— Tenho problemas de mobilidade — expliquei. — O apartamento é acessível?

— Com certeza.

— O anúncio diz que o metrô fica a poucos passos. É perto mesmo?

— Dois passinhos. Quase em frente à porta do prédio.

— Maravilha.

O Universo continuou suspeitosamente calado. Nenhuma objeção. Pensando bem, aquele silêncio deveria ter me apavorado.

Já era noite quando meus amigos me levaram para lá: eu, minhas limitações físicas e uma quantidade de malas suficiente para mudar a população de um pequeno país.

Assim que nos aproximamos do endereço, o painel do GPS deveria ter soado um alerta. O prédio ficava exatamente ao pé da escadaria de acesso a uma favela.

As favelas do Rio, hoje chamadas de comunidades, são bem variadas. Algumas são como bairros tranquilos, e outras são um pouco mais… “aventureiras”. Eu não fazia a menor ideia de qual era o caso ali.

O anfitrião nos recebeu na porta e notou logo a minha expressão de pânico. Olhei para ele. Ele olhou para mim. Um silêncio dramático de três segundos se instalou. Tomei a iniciativa:

— O senhor esqueceu de mencionar que o prédio é colado na entrada da favela.

— Ah, não se preocupe! — respondeu ele, com o otimismo de quem acabou de ganhar na loteria. — Essa comunidade é pacificada.

Pacificada.

Fiquei encarando o homem. Aquela palavra deveria me acalmar? O que diabos significava uma favela pacificada? Traficantes fortemente armados organizando um bazar beneficente com queijadinha e rocambole todo domingo?

— Não acontece nada aqui — garantiu ele. — A senhora estará perfeitamente segura.

Claro. Super confiei. Santa Maria Periquita! Mas fazer o quê? Entramos, e ele então nos levou ao apartamento.

Vale lembrar que, pelo anúncio e pelas fotos, eu tinha alugado um apartamento de um quarto com cozinha completa.

Ah, doce ilusão...

O fotógrafo daquele anúncio merecia um Oscar. Ou ser processado por estelionato. O lugar era perfeito, sim, desde que sua grande ambição de vida fosse ser uma sardinha enlatada.

O "quarto" era um cubículo claustrofóbico, separado da “sala” por uma divisória de madeira e vidro capenga — obviamente erguida para criar a ilusão de um segundo quarto. Já a "cozinha completa" deve ter sido teleportada para algum outro lugar. No lugar dela, restou o que um dia deve ter sido uma área de serviço bem estreita.

Alguém teve a audácia de espremer uma geladeira logo na entrada daquele corredor minúsculo. Para entrar ali, você precisava dominar técnicas avançadas de contorcionismo. Duas pessoas juntas? Nem por milagre.

— Aqui tem uma pia e um fogão — anunciou o anfitrião, apontando para uma pia do tamanho de uma caneca e um fogareiro de camping de duas bocas.

Em seguida, ele apontou orgulhosamente para o alto:

— Tudo de que a senhora precisa para cozinhar está naquele armário.

Olhei para cima. Bem para cima. O armário estava instalado a mais de dois metros de altura. Naquele momento, ele estava mais perto do Universo do que de mim.

Encarei o homem.

— E como, exatamente, eu alcanço as panelas?

— Ah... — gaguejou ele, perdendo o rebolado. — Tem esta escadinha aqui.

— Eu mencionei que tenho problemas de mobilidade.

Ele deu uma risadinha sem graça. Eu não.

Fui até o quarto. A cama ficava ali, colada na janela. Quando me aproximei, meu anfitrião demonstrou um repentino e suspeito interesse pela minha privacidade, sugerindo que seria melhor manter as cortinas fechadas.

Naturalmente, eu as abri. O que vi fez meus olhos quase saltarem das órbitas e o queixo cair até o chão!

Lá estava a favela. Não a uma quadra. Não do outro lado da rua. Colada na minha janela.

Meu Deus do céu!

Depois que o hospedeiro foi embora, fiquei estática no meio do apartamento, cercada por duas malas enormes, duas malas de mão, uma bolsa, uma sacola cheia de garrafas d’água, minha fiel bengala... e uma coleção cada vez maior de decisões de vida questionáveis.

Para coroar a experiência, o ar-condicionado funcionava. Tecnicamente. Na prática, ele parecia ter sido projetado para alternar entre um congelador industrial e um verdadeiro inferno na Terra. Naquele momento, percebi que precisaria tomar uma decisão difícil: escolher entre virar um picolé ou um pedaço de carvão incandescente.

Depois de tantas surpresas, descobri mais um pequeno detalhe: o apartamento não ficava exatamente "perto" do metrô. Havia apenas uma bela ilusão de ótica. De fato, existia uma boca de metrô alguns metros abaixo, na rua. O problema era o "resto". Para chegar à plataforma de verdade, eu precisava descer a rua íngreme até a entrada, descer uma escadaria enorme e vagar por corredores subterrâneos infinitos. Andando. E andando mais um pouco. E continuar andando. Com sorte, e se todas as minhas articulações colaborassem, eu finalmente chegaria à estação.

É fascinante como corretores de imóveis conseguem pintar mentiras com delicadas nuances de verdade.

Por fim, sentei-me na cama. Não derrotada, apenas recalibrando a minha sanidade.

“Tudo bem”, pensei. “Eu consigo. Vou fazer isso funcionar.”

Peguei o carregador do celular.

Ôpa, não tem tomada perto da cama. Tudo bem, respira.

Talvez o abajur tivesse uma entrada USB. Inclinei-me para inspecionar e então—

Pá! Pá! Pá!

Tiros.

Não eram fogos de artifício.

Não era o vizinho fazendo obra.

Eram tiros reais.

Se alguém tivesse filmado a minha reação e acelerado o vídeo, a Pixar certamente compraria os direitos da animação.

Dei um grito histérico e me lancei para fora da cama como uma gata arisca assustada — daquelas que arqueiam as costas, arrepiam até a alma e saltam verticalmente no ar. Num momento eu estava sentada; no milionésimo de segundo seguinte, eu estava no ar, indo aterrissar na frente do sofá.

Quando aterrissei, agarrei a primeira almofada que vi e a coloquei sobre a cabeça. Aparentemente, nas profundezas do meu cérebro exausto, havia a firme convicção científica de que espuma e poliéster eram materiais totalmente à prova de balas.

O pânico faz coisas maravilhosas com a lógica humana.

E ali estava eu: agachada no chão, camuflada ao lado de um móvel barato e armada até os dentes com uma almofada decorativa...

Ah, meu Deus. Eu deveria estar rindo. Não porque fosse engraçado no sentido ha-ha. Mas porque era inacreditável.

Três vezes.

Três tentativas.

Três fracassos espetaculares.

Foi aí que a ficha caiu: o Universo cansou de mandar sinais sutis, sussurros ou empurrãozinhos. Ele decidiu pegar um megafone e berrar no meu ouvido:

“VOLTA PARA O APARTAMENTO DA SUA MÃE!”

No fim, uma amiga me resgatou. Voltei para o apartamento da minha mãe. De novo. Mas, dessa vez, em vez de planejar a próxima fuga, aceitei a derrota com humildade. Juntei a papelada espalhada por tudo que era canto, contratei uma faxineira para fazer a limpeza pesada, fiz compras e abri as janelas. Peguei lençóis limpos e fui colocando várias camadas na cama, tentando deixar o colchão um pouco menos hostil.

Devagarzinho, o lugar foi deixando de se parecer com as ruínas de Pompéia.

Que ironia, né? O lugar do qual eu tentei fugir desesperadamente acabou sendo o porto seguro que estava lá o tempo todo.

Toda aquela viagem foi um grande compilado de desastres. Alguns dolorosos, outros absurdos, e a maioria bem engraçada — depois que o trauma passa, claro.

Talvez o Universo realmente fale com a gente. Primeiro, ele sussurra. Depois, dá uns empurrãozinhos. Se for ignorado, ele passa a provocar catástrofes cada vez mais ridículas. E, se você for realmente teimosa — como eu fui —, ele apela para tiros.

Metaforicamente falando ... na maioria das vezes.

Quando o Universo decide que você precisa mudar de rumo, ele é incrivelmente persistente. Mesmo que quase te mate no processo.

O que, convenhamos, não deixa de ser uma mudança de direção bem radical.

—×—

Comments

  1. Adorei ler suas aventuras nessa viagem ao Rio de Janeiro. Se eu tivesse ali perto ouvindo pessoalmente suas idas e vindas, teria achado que tudo nao passava de criatividade! Mas nao!!! Parabéns pelo ótimo texto. Adorei a leitura!!!

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